Amarelo... Amarelo... (Metrocity)
De Iniciativa RPG Wiki Brasil
Amarelo... Amarelo...
“Que timing horrível” pensei enquanto saia do cemitério, vestida de preto, em silencio, os olhares baixos, com aquele ar ausente que se espera de pessoas que acabaram de perder um parente querido. E eu me esforçava em parecer bem ausente. Tinha motivos para isso. Perdera não um, mas dois parentes.
Pensado bem, nem era difícil fingir aquele ar de enterro. Está certo que não era exatamente pela perda de meu irmão. A gente nunca se deu bem. Fazia anos que não trocávamos um telefonema. Também não era pela perda de minha cunhada, aquele bibelozinho que só vi no dia do casamento deles. Ah, e no meu casamento, aliais finado casamento, uns três anos atrás. Como poderia esquecer, ela ficava ostentando aquele barrigão como se fosse a única grávida do mundo.
Minha cara de velório vinha da preocupação com o que sobrava pra mim. Trabalho. Dor de cabeça. A guarda da minha sobrinha. Era por poucos dias, é verdade, até que a tia italiana, uma irmã da mãe viesse busca-la, mas...
Eles tinham que aprontar aquela palhaçada exatamente ontem! Atravessar a Avenida dos Bandeirantes em alta velocidade, com o sinal vermelho, de madrugada! E justo na hora em que duas carretas imensas apostavam corrida... Foi um milagre que Beatrix escapasse viva, e só com um galo na testa. No hospital garantiam que não havia nada de errado com ela. Precisaram de vinte e quatro horas para chegar a essa conclusão. Vinte e quatro horas que eu – eu, tão ocupada tive de passar num quarto de hospital, como acompanhante de uma criança que jamais havia visto antes.
- Meu Deus, que timing simplesmente hor-rí-vel!
Beatrix ainda era muito novinha para entender direito o que acontecia. Alguém havia dito que papai e mamãe estavam passeando por aquele jardim bonito, ela ia silenciosa a meu lado, depois e ouvir que não, ela não podia passear com eles porque eles estavam conversando umas coisas muito serias. É isso que dá inventar mentira pra crianças, depois tem que ir completando a mentira e a coisa vai crescendo, crescendo...
Eu disfarçava e examinava Beatrix com espanto, ciente do desconforto que me causava segurar aquela mão minúscula e conduzir minha sobrinha como se nuca tivesse feito outra coisa na vida. Eu, que nunca tinha feito isso! Eu que tenho alergia à criança!
Não dava pra negar que ela parecia uma bonequinha, vestida como estava com aquele vestidinho amarelo-ouro. Uma fita da mesma cor tentava pôr em ordem seus cabelos castanho-escuros, que caiam em cachos abundantes e longos. Longos cílios escuros enfeitavam os olhos azuis enormes, que acompanhavam pensativos o movimento os sapatinhos amarelos à medida que caminhávamos em direção ao estacionamento.
Essa bonequinha, porem, tinha chegado no momento exato para atrapalhar completamente minha vida. Que tinha boas chances de mudar naquela noite. Quer dizer, caso eu conseguisse alguém para tomar conta da menina. Aquela noite erra a noite da Festa.
Ajeitei Beatrix no banco e trás do carro. Enquanto eu colocava seu cinto de segurança e arrumava seu vestido, ela me olhou com aqueles olhos enormes e disse:
- Eu gosto de amarelo.
Dei, portanto, um sorrisinho amarelo. Que situação, meu Deus, manter uma conversa com uma criança de três anos! Uma perda de tempo.
- Foi por isso que colocaram esse vestido bonito em você? – Nada mal, estou conseguindo baixar o nível da conversa até ela.
Seria, ela balançou a cabeça.
- Nããão. Ela não gosta de amarelo. Eu que gosto.
Epa, conheço esse tom! O mesmo tom idiota que eu uso para responder uma pergunta idiota. Irritada fiz cara de “ah, bom!” e desisti e forçar minha natureza. Realmente, não gosto de crianças.
Mas não deixei e achar interessante o fato de ter reconhecido nela alguma coisa minha. Ela era realmente minha sobrinha. Enrubesci, envergonhada com esse pensamento.
Que isso, Valérie, orgulhosa por ser... titia?!
Foi um alivio sair para o congestionamento e a agitação da Washington Luiz, depois da calma desconcertante o cemitério. Os sinais estavam todos malucos, talvez com algum problema de sincronismo, mudando de cor sem nenhum padrão lógico. O silêncio do carro estava enervante.
Olhei pelo retrovisor. Beatrix parecia um anjinho, sentada olhando para frente com o pescoço esticado, como se estivesse atenta ao transito. Mas aquele tico de gente era tão baixinho! Deveria estar vendo apenas postes e telhados.
Preciso compara uma cadeirinha para ela, pensei, para me arrepender em seguida. Idiota, ela não vai ficar com você. Logo logo você vai se livrar dela, graças a Deus.
O silencio continuava a me incomodar. Tentei fingir que estava sozinha no carro. Não deu certo. Pelo retrovisor continuava vendo aqueles cabelos castanhos e um par de olhos azuis que, descobri com um arrepio, me perturbavam. O silencio era insuportável.
- Vamos passar na sua casa e pegar seus brinquedos e umas roupas. Hoje você vai dormir na casa da tia. – Falei fingindo animação.
Ela balançou a cabeça, concordando. Não perguntou por quê. Não perguntou pelos pais. Não fez nenhum comentário. Menininha estranha.
É, pensei, suspirando, é mesmo minha sobrinha.
a empregada que abriu a porta estava toda arrumada, pelo visto, só esperando nossa chegada para dar o fora. Não houve argumento que a convencesse a tomar conta da menina só por uma noite, só hoje. Não. Pago bem. Não. Por quê? Não trabalho de noite, meu marido não deixa. Mas só hoje! Pago cem. Duzentos. Nem por todo o dinheiro do mundo. Por quê? Meu marido não gosta, já falei! de dia, largando as cinco, tudo bem, se a senhora quiser eu fico.
De dia não me interessa, já tenho minha faxineira.
Derrotada, acertei as contas com ela, paguei o que minha cunhada não poderia mais pagar. Ela concordou em ficar um pouco mais para ajudar a fazer as malas da menina. Ela gostava muito de Beatrix.
Separando as roupas de Beatrix, estranhei a quantidade de vestidos amarelos. Comentei isso com a empregada e recebi um olhar meio torto.
- Ela gosta de amarelo. A senhora não sabia?
Tudo bem, estava acostumada a reações como essa. O que, você não gosta de crianças? Cadê seu instinto maternal? Tia desnaturada, nem conhece sua sobrinha? Diabos de sociedade machista! Homem pode tratar criança como se fosse uma peça de mobília, ou um arbusto na paisagem, ou ignora-la como se não existisse. Mulher não.tem obrigação de gostar dos filhos dos outros, de nenê mijado, de criança com nariz escorrendo, de moleque que derrama guaraná no estofado.
Como Beatrix ia ficar comigo por poucos dias, decidi levar só alguns vestidinhos, os que achasse mais bonitos. Não me preocupei com as cores e separei os mais engraçadinhos, para só depois perceber que eram todos amarelos. Os tons variavam. Uns, de tecido mais fino, tinham cor suave, quase um branco amarelado. Outros de, pano mais grosso, tinham cores mais fortes, como aquele ali de linho quase alaranjado. Mas não pude deixar de admitir que minha sobrinha, se é que havia sido ela quem escolhera os vestidos, tinha bom gosto. Um gosto parecido com o meu.
Antes de ir embora, algum instinto materno há muito extinto ressuscitou dentro de mim e, por uns vinte minutos, interroguei impiedosamente a empregada acerca do mundo de Beatrix e de sua família. Talvez não tanto por preocupação com a criança, mas porque procurava alguma pista, alguma saída para meu dilema: que fazer com Beatrix hoje à noite, quando eu fosse à Festa? Quem ia tomar conta dela?
Os resultados foram decepcionantes. A mãe de Beatrix, italiana, não tinha parentes na cidade. Também não tinha grandes amigas. Amizades superficiais no clube, conhecidas do cabeleireiro. Sua vida social era com os clientes, os sócios, os amigos de meu irmão e suas famílias, num contato sempre formal. Meu irmão era mal humorado e fechado, vivendo só para o trabalho. Dá pra imaginar porque se casou, para exibir uma esposa bonita e elegante nos coquetéis e para isso tinha escolhido a mulher perfeita. Não tinha amigos, tinha negócios. Não ia a festas, fazia contatos. Eu, hein? Vida besta! Pra acabar como acabou.
Tampouco Beatrix tinha amigas. Não ia a escola. Não brincava na rua (mas também, hoje em dia, criança nenhuma brinca na rua, não é?). era uma menina quieta e curiosa, que ficava horas trocando os vestidos de suas bonecas ou examinando as flores e as formigas do jardim. Sabendo o que ia encontrar, dei uma espiada nas bonecas e no jardim: roupas amarelas e rosas amarelas. Não vi as formigas, seriam também amarelas?
Uma coisa porem me interessou e muito. Já que não tinha ninguém para tomar conta dela, Beatrix acompanhava os pais em seus compromissos noturnos. Festas, jantares, concertos, vernissages, Beatrix sempre estava lá, até altas horas da madrugada, junto com papai e mamãe, comportada como uma lady. Uma lady curiosa, que olhava embaixo das toalhas e atrás das cadeiras, mas com graça e dignidade, sem atrapalhar ninguém e encantando a todos.
Um plano de emergência estava se formando em minha cabeça. Em ultimo caso, não havendo outro recurso, Beatrix iria comigo à Festa.
Quando nos despedimos da emprega, ela abraçou Beatrix com ternura.
- Cuida dela direitinho, ela é muito especial.
- É, sim. Eu sei. – Respondi a aquele chavão sem pensar, mas a reação dela foi uma surpresa.
- Não, não sabe. – Virou as costas e se afastou pela calçada, em direção ao ponto de ônibus.
Antes de ir para casa, passamos em um shopping. É, eu sei que é muita falta de sensibilidade levar para fazer compras uma criança que acabou de enterrar os pais. Mas não tenho culpa se eles escolheram morrer bem na véspera da Festa. Além do mais, ela nem parecia estar se importando muito, e olhava maravilhada em todas as direções. Claro em todas as direções onde houvesse algo... amarelo.
Agora que tinha decidido levar minha sobrinha à Festa, eu estava quase alegre. Estava imaginando a cena: eu ia chegar deslumbrante como sempre em um vestido preto minúsculo, com um salto altíssimo, levando Beatrix, com um vestidinho cor-de-rosa, pela mão. Não, peraí. Salto altíssimo não, senão como que vou alcançar a mão da menina? Saltinho. Que droga, isso vai prejudicar meu visual, mas não tem jeito. Dane-se sou alta mesmo, um saltinho não é problema.
Numa loja de roupas para crianças, escolhi um vestidinho cor-de-rosa e branco, vaporoso, cheio de babados e com mangas fofinhas. Com meia-calça branca, sapatinhos cor-de-rosa, e um laçarote rosa na cabeça, Beatrix estava tão engraçadinha que impressionou as funcionárias. Duas ou três pessoas que passavam pelo corredor pararam na porta da loja para olhar minha sobrinha. Minha sobrinha! Valérie, Valérie...
Beatrix se olhava no espelho, vaidosa, virando de um lado para o outro para fazer a saia balançar. A menina era uma fonte constante de assombro. Achei que ela ia fazer a maior cena e exigir um vestido amarelo, mas ela parecia perfeitamente feliz com aquele. Incrível, não?
Que bom que a trouxe ao shopping, pensei, mais para acalmar milha consciência por não estar desconsolada pela morte de meu irmão, ela parecia tão contente...
Chegamos em casa pouco antes da hora do almoço. Raquel, minha faxineira, já tinha aprontado a refeição. Ela se encantou com Beatrix.
- Que menina bonita, viçosa, dona Valéria. – Ela não se convencia que agora eu era Valérie, em francês, mais elegante, mais artístico, mais sei lá... Mas não a corrigi. Pra dizer a verdade nem me importei, eu estava orgulhosa de minha sobrinha.
- E você precisa ver como ela fica no vestidinho que comprei pra ela – Falei animada, enquanto desembrulhava as compras. Rachel não estava chocada com minha alegria, um dia após a morte de meu irmão. Ela me conhecia bem.
Continuei falando enquanto abria o pacote do vestido preso por metros de fita.
- Ela vai à festa comigo. Comprei um vestidinho cor-de-rosa lindo e sapa...
Esqueci o ia dizer quando tirei o vestido do meio dos papeis.
Amarelo!
Igualzinho ao que eu tinha escolhido. Mas amarelo.
Amarelo clarinho, com enfeites brancos.
Beatriz olhava o vestido, encantada.
- Mas dona Valéria, o vestido é amarelo.
- Não entendo, a gente escolheu cor-de-rosa – olhei para Beatrix – Não foi, beatrix?
A criança parecia radiante e batia palmas.
- Eu gosto de amarelo! Eu gosto de amarelo!
Fiquei furiosa.
- Aquelas incompetentes da loja embrulharam o vestido errado. Mer... – Engoli o palavrão, não queria falar coisas assim na frente de Beatrix. – Droga, Eu com tanta coisa pra fazer à tarde e vou ter que voltar lá pra trocar essa porcaria.
- Mas Dona Valéria, essa cor é tão bonita, orna tanto os cabelos da menina. Ela gosta tanto, olha a felicidade dela...
Beatrix continuava olhando embevecida para o vestido, mas eu não ia me acalmar assim tão fácil. Odeio ser mal atendida em lojas. Abri a caixa do sapato. Amarelo. No mesmo tom do vestido. O embrulho da fita. Amarelo, só um pouco mais escuro. Fiquei mais enfurecida ainda. Isso não era um engano! O pessoal da loja tinha aprontado comigo, deveriam estar todas rindo as minhas custas. Isso não ia ficar assim! Eu era capaz de desistir o cabeleireiro só para ir ao shopping rodar a baiana com aquelas irresponsáveis.
Comemos em silencio. Eu estava espumando de raiva. Beatrix deve ter percebido. Comia quieta, sem reclamar. Insensível, nem perguntei o que ela gostava de comer, mas devia estar achando bom, porque não fez nenhum comentário sobre a comida. Mas eu tinha certeza, que estava gostando das batatas fritas e do suco de maracujá. Assim como tive certeza que não era a eles que se referia quando, com muita seriedade disse:
- Tia, eu gosto de amarelo!
Disse isso com tanta cerimônia que me arrepiei. Eu estava ficando preocupada. Comecei a imaginar se Beatrix era normal. Se essa obsessão com o amarelo não seria um sintoma de algum problema mais sério, uma fixação, uma mania, sei lá.
Lembrei-me com um arrepio que alguém havia me contado que uma testemunha do acidente havia dito que, quando meu irmão atravessou a avenida, o semáforo estava amarelo para ele. Imaginei se Beatrix no banco de trás com seu pescocinho esticado, olhando as luzes amarelas feliz, sem saber que duas carretas iam mudar para sempre sua vida. Imaginei-me no lugar dela. Imaginei-me sobrevivendo ao acidente. Imaginei-me para sempre neurótica com semáforos no amarelo...
Mas não, isso é bobagem, a menina nem sabe pra que serve um semáforo. A empregada disse que ela sempre gostou de amarelo. Daí a atenção quando anda de carro. Ela quer ver as luzes amarelas só isso.
E ela tinha me chamado de tia pela primeira vez, ora vejam só...
Depois do almoço voltei ao shopping. Beatrix foi comigo, confesso contra minha vontade, estava fascinada por ela. Ela me intrigava, e passei a suspeitar que guardava algum mistério. Mas que mistério pode guardar uma criança de três anos?
A 23 de maio estava miraculosamente livre. Eu estava com pressa e apertei fundo o pedal do acelerador, desviando com facilidade de um u outro motorista mais lerdo. Sentada no banco de trás, o rostinho voltado para o vento que agitava seus cabelos, Beatrix era a própria felicidade.
- Eu gosto do seu carro tia!
Ufa, ela virou o disco! pensei com alívio, notando que ela continuava me chamando de tia. Eu, tia! Estranho, mas isso me dava uma certa satisfação.
Na loja, como era de se esperar, ninguém sabia como aquilo tinha acontecido, foram pedidos milhões de desculpas e claro que nós vamos trocar os sapatos, o vestido e a fita. A gerente olhava irritada para a vendedora confusa. Ao sair da loja, com um novo embrulho, que desta vez continha um vestido cor-de-rosa, ainda ouvi a moça se desculpando perplexa.
- Mas, dona Neide, não dá pra entender, a gente nem tinha recebido esse modelo em amarelo...
De mãos dadas com Beatrix, que a meu lado acompanhava com seus passinhos miúdos os meus passos apressados, tomamos o elevador. Enquanto descíamos até o piso do estacionamento, olhei para minha sobrinha. Ela levantou aquela carinha adorável e me olhou sorrindo. Sorri para ela.
- Tia, eu gosto do seu carro.
- Eu sei, querida, você já disse – acho que eu realmente estava gostando dela. Bolas, uma criança é só uma criança. São todas iguais. Exceto Beatrix, e isso eu já ia descobrir.
As portas do elevador se abriram. Indo em direção ao lugar onde havia estacionado o carro, procurei com os olhos, como todo o motorista costuma fazer, sempre com a vaga e desagradável impressão de que não vai encontrar seu carro no lugar que deixou.
Algo estava errado. Apertei com mais força a mãozinha quente de uma Beatrix saltitante de alegria.
Eu não via meu Vectra azul-escuro. Olhei ao redor. O código de cores e letras pintado na coluna do estacionamento me dizia que eu estava no lugar certo, mas não via meu carro.
No lugar onde ele deveria estar havia um outro Vectra.
Amarelo.
Beatrix sorria.
- Tia eu gosto do seu carro! Seu carro è bonito! Eu gosto de amarelo!
Em casa, eu observada Beatrix dormindo no sofá, derrotada pela exaustão gerada pelo acidente, hospital, enterro, e shopping, em combinação de vários copos de suco de maracujá.
Eu estava aterrorizada.
Meu Deus, o que estava acontecendo.
Especial, dissera a empregada. Ela sabia. Eu não imaginava o quão especial ela era.
Beatrix gostava de amarelo. Seus vestidos eram amarelos. Mas não todos, provavelmente apenas os que ela achava bonitos. Lembra-se Valérie, de que você escolheu só os que achava mais bonitos e todos eram amarelos? Não me surpreendi muito ao abrir os pacotes e encontrar um novo vestido amarelo, sapatos amarelos e uma fita amarela.
As rosas do jardim. As roupas das bonecas. Meu carro.
As luzes dos semáforos... Não era coincidência nem defeito que todos mudassem para amarelo quando íamos passar. Era Beatrix brincando com as luzes bonitas!
Fiquei gelada de terror. O acidente que matou seus pais. Que dissera o motorista de uma das carretas? Que o sinal estava verde para ele. Que havia dito a testemunha? Que o sinal vermelho mudou para amarelo de uma hora pra outra. Amarelo. Fechei os olhos e imaginei a cena. A família voltava para casa de madrugada, depois da festa. Meu irmão levemente alcoolizado e com os reflexos prejudicados. Beatrix que deveria estar dormindo, mas não estava, sentada no banco de traz, pescocinho esticado para poder ver as luzes bonitas. Não vermelho é feio. Amarelo. O pai, alegrinho, desatento, seguiu em frente. Tampei o rosto com as mãos e chorei. Chorei por meu irmão e minha cunhada. Pela responsável por suas mortes: um anjinho de olhos azuis e cabelos castanhos que nem imaginava o que fizera.
Eu estava transtornada. Olhava para Beatrix com medo, com repugnância. O que era aquilo? Minha sobrinha? Não, não podia ser. Um monstro. Alguma coisa que eu não entendia. Aquilo era um pesadelo.
Não, não é possível. As coisas são o que são, ninguém muda as coisas só porque quer. Eu tinha que estar enganada.
Mas foi só ir a janela e me certificar. Lá estava, parado na minha garagem, um reluzente Vectra amarelo-ouro. Com a placa que eu havia escolhido, VAL e o ano de meu nascimento. Raquel espantada me pergunta se eu tinha mudado de carro. Sim, disse e desconversei. Que bom que a senhora desistiu de destrocar o vestido. Sim. Se a senhora não precisar de mim vou indo, meus filhos devem estar esperando. Sim, pode ir.
Beatrix dormia no sofá, com aquele cabelo lindo espalhado pela almofada, ajoelhei-me para olhá-la. Não, ela não era um monstro. Era especial, como havia dito a empregada. Ela estava certa. Antes eu não sabia. Agora sim. Lembrei-me da ternura com que ela abraçara Beatrix. Não se sente tanto carinho assim por um monstro.
Beatrix era especial. Eu ia ter que aprender a conviver com isso. Talvez algum dia entender. Mas isso não importava. Compreendendo-a ou não, ela era minha sobrinha. E, alem do mais, em breve ela partiria. Só que isso começava a me incomodar.
A Festa ia começar daí umas poucas horas. Já era tarde para mudar meus planos. Estranha ou não, Beatrix teria que ir a festa comigo.
Depois que Beatrix acordou, ensaiei meu papel de mãe interina. Desconfiada, tocando em seu corpinho a contra gosto, dei-lhe um belo banho e lavei-lhe o cabelo. Estava com os nervos a flor da pele, esperando que a qualquer momento, ela dissesse “gosto da toalha”, ou “gosto o sabonete” e... puff! Amarelo! Mas não houve mais incidentes. Ela não parecia nem ai, brincando com a água da banheira e a esponja enquanto resmungava alguma musica que só as crianças conhecem.
Estranho. Penteava os cabelos dela e percebia como era agradável a sensação de fazê-lo. Herança de nossos avós macacos, pensei, fascinada. Entre os primatas, cuidar da penugem uns dos outros sempre foi um ato intimo, que aumentava a união entre os membros da família. Pelo visto isso ainda funcionava.
Coloquei seu vestidinho, seus sapatos e o laço, e tomei distancia para olhá-la. Definitivamente não era um monstro. Não era uma bruxa, tão pouco. Parecia mais uma fada, assim vestida de amarelo. Estava linda. Satisfeita, deixei-a assistindo a um vídeo qualquer sobre um pintor holandês, torcendo para que ela não achasse um saco, nem tão lindo que merecesse ser amarelo.
Arrumei-me às pressas.
- Nossa o tempo voa, já são quase dez horas!
Olhei o resultado final do espelho. Deslumbrante, é claro.
E foi assim, deslumbrante, que apareci na sala.
Beatrix tirou olhos da tv e ficou deslumbrada.
- Tia, que bonito!
Fiquei envaidecida. Beatrix tinha o mesmo bom gosto que eu.
- Gosto do seu vestido!
- NÃÃÃÃÃO!
Tarde de mais. Eu teria que ir a Festa de amarelo.
- Que gracinha sua sobrinha!
- Que lindinha!
- É muito parecida com você!
No caminho havia me preocupado com o que aconteceria se Beatrix achasse bonito o vestido de alguma convidada. Mas agora via, aliviada, não haver motivo para qualquer apreensão. Se o gosto de Beatrix fosse realmente parecido com o meu ela deveria estar achando medonho aquele bando todo de mulheres ricas e bregas.
- Valérie! Você está deslumbrante de amarelo! Não sei porque sempre teimou em usar preto.
Ouvindo aquela voz que tanto conhecia percebi que estava nervosa. Afinal havia chegado a hora.
- Emygdio!
- e que beleza de sobrinha – Continuou o homem que usava um terno perfeito, enquanto me abraçava. – Por quê a escondeu de nós todo esse tempo?
- Ela veio morar comigo hoje. Só por uns tempos. Os pais dela... morreram... ontem... um acidente – ora, ora, para meu espanto a tristeza e o nó na garganta ao disser isso eram verdadeiros.
- Oh, lamento muito. Meus pêsames – Voz e face se entristeceram por alguns segundos, mas voltaram a brilhar quase imediatamente. Afinal, era o dono da festa – Mas estou impaciente para ver sua obra. Bom, não só eu, acho que todos por aqui.
E olhou ao redor, triunfante. As pessoas mais próximas, que acompanhavam a cena, pegaram a deixa pararam de fingir que não estavam atentas à nossa conversa, concordando com entusiasmo.
Com um braço em volta da minha cintura, o anfitrião me carregou por um tour pela festa. Eu era a prova viva do caçador de talentos. Não sei quantas vezes ele contou para essa ou aquela sociallite, de que forma ele havia descoberto a então obscura Valérie Guillemot numa obscura coletiva numa obscura galeria de arte. A arrogância,a vaidade, a frivolidade de Emygdio Paranhos de Assumpção me irritavam, mas sem ele eu ainda seria Valéria Rodrigues, e não “a mais nova queridinha do circuito cultural-chique da Metrópole Desvairada”, como me definiu certa despeitada colunista social.
O fato é que ele, uma das estrelas mais brilhantes da sociedade, e com uma fortuna de primeira grandeza, me encomendou uma obra, às escuras. Tamanhas sua confiança em mim que, mesmo antes de ver a obra, já estava certo que seria uma obra prima, e dizia isso a todos. Na festa, toda a sociedade descobriria, junto com ele, até onde chegava a genialidade de Valérie de Guillemont.
Isso tudo me dava um certo medo. Eu sabia que meu trabalho era bom, todos os meus professores diziam isso. Que eu tinha talento, sensibilidade. Que parecia dar vida ao material. Que conseguia resultados sempre perfeitos.
Claro que eu tinha que ficar nervosa.
Nem ousava sonhar com o que poderia acontecer se meu trabalho caísse no agrado daquela platéia, rigorosamente selecionada se não pelo bom gosto, mas ao menos por seu saldo bancário. Bem, eu imaginava ao menos quais seriam os reflexos em meu saldo bancário, caso tivesse algumas obras minhas espalhadas por ai, pelas melhores salas de estar da cidade.
Estava nervosa, sim, mas adorando a festa, e aproveitava ao máximo a sensação de ser o centro das atenções.
Perto da meia-noite, percebi que Beatrix tinha sumido.
Fiquei preocupada, mas, afinal a menina estava acostumada a festas de adultos. A empregada tinha dito que ela não era arteira. Pedi desculpas ao antiquário rico e saí à caça de Beatrix.
Com ansiedade estranha, passei à sala vizinha. Era espaçosa e estava apinhada de gente porque era onde a ação ia acontecer. Ali, protegida por um veludo cinza, minha obra esperava o grande momento.
Fui em sua direção.
Sensação de catástrofe. O veludo se mexia.
Lembrei da empregada dizendo “ela adora se enfiar embaixo das toalhas”.
Dos sapatinhos amarelos por trás do pano.
Apressei-me, afastando as pessoas que me separavam do veludo. Levantei uma ponta do veludo. A luz iluminou minha obra. Com a rapidez de um raio, Beatrix levantou os olhos e conseguiu, finalmente, o que queria – ver meu quadro.
- Tia, que lindo! Lindo!
Amarelo... Amarelo...
Semanas de Trabalho.. Toda minha carreira,... Um futuro luminoso...
Saí aos tropeções de detrás da cortina de veludo que encobria o enorme quadro, pendurado em posição de destaque numa parede repleta de outras pinturas. Arrastava Beatrix pelo braço, e ela soluçava, assustada com minha violência.
Amarelo!
Minhas cores perfeitas! Perdidas! Substituídas por amarelos e amarelos e amarelos!
Meu Deus! E agora o que eu faço?
Algo estava acontecendo com a multidão, que se agitava. Meia-noite, claro, hora de abrir as cortinas. Aturdida, afastei-me do quadro, espremendo entre as pessoas e arrastando Beatrix comigo. Todos olhavam na direção de Emygdio Paranhos de Assumpção, que parado em frente das cortinas de veludo fazia algum tipo de discurso.
Eu estava perdida. Via minha carreira indo embora privada abaixo, com a descarga.
Perdida, eu estava perdida. Aquilo parecia um pesadelo. O nó que se formou em mina garganta ameaçava sufocar-me. Encostei-me na parede oposta à do quadro e comecei a chorar em silencio. Minhas lindas cores!
Fechei os olhos, desesperada. Revi mentalmente o momento que terminei de pintar e sentei-me diante do quadro para contemplá-lo. Lindo. Perfeito. Como dizia aquele professor? O domínio mágico da cor. Lembrei-me de cada detalhe, cada pincelada, tinha todas elas estampadas na memória. Meu quadro perfeito. Minha obra-prima.
Beatrix estava ao meu lado acariciando minha mão com seus dedos rechonchudos. Eu chorava, mansamente, as lagrimas escorrendo, os olhos de verdade fechados e os olhos da memória acompanhando cada movimento, cada curva, cada toque que o pincel fizera pra recobrir com tintas e cores a superfície virgem da tela. Em pensamentos refiz o quadro, para sempre destruído. Minhas cores, minhas belas cores!
De repente silencio total.
Prendi a respiração. É agora. Céus!
E então um murmúrio de admiração. E palmas. Palmas. Palmas que não acabavam.
Que acontecia? Prendi a respiração e abri os olhos. Lá estava meu quadro, perfeito. Ainda perfeito. Inacreditavelmente perfeito em suas cores. Em minhas cores.
E Beatrix apertando minha mão e me olhando, feliz.
A mágica das cores!
Beatrix era minha sobrinha. Ela era minha. E só com o tempo eu iria descobrir o quanto tínhamos em comum, o quanto compartilhávamos... além da mágica das cores.

