Cidade de Wild Moreau Mountain (Metrocity)
De Iniciativa RPG Wiki Brasil
Em 1958 aqui foi o local escolhido pelo grande herói Homem-Animal pra se aposentar. Com o poder de toda a forma de vida ao seu controle ele foi um dos maiores heróis esquecidos de todos. Mas não é deles que falaremos hoje e sim de suas 7 netas.
Dias atuais.
Ariane tirou a mecha negra do rosto. O vento insistia em atrapalhar o treinamento intensivo que fazia. Prendeu os longos cabelos com uma faixa, com incrível habilidade. Sophie observava-a a uma certa distância. Admirava aquela jovem. Sua frieza e suposta indiferença diante de tudo eram traídas pelos olhos vivazes e humanos que ela possuía.
Sophie conhecia-a melhor do que as outras, pois passava algum tempo com ela, desde que Andreia havia partido pra a América. Ariane, juntamente com todas as outras meninas da cidade, havia ficado incrivelmente decepcionada e tristonha. Afinal, apesar de não ter nada de especial, como um porte atlético ou inteligência, Andreia tinha um incrível carisma que facilmente contagiou-as.
Ariane relaxou, exausta. Mirou o seu oponente: um boneco parecido com um espantalho que tinha um eterno sorriso estúpido no rosto. Aquele sorriso eternamente idiota fazia Ariane irritar-se e atacar seu “oponente” com fúria. Especialmente porque aquele fora o último presente que Andreia lhe dera antes de partir. Com um sorriso, Sophie observou Ariane reparar os danos que causara ao pobre ser inanimado. Com movimentos rápidos e precisos, costurou um corte que havia feito, com demasiada preocupação para um simples boneco.
- Eu também sinto falta dela, Ariane – comentou Sophie, distraidamente.
- Quem disse que sinto falta de alguém? – respondeu Ariane, com um tom venenoso. Não ousou encarar Sophie nos olhos, pois sabia que ela os leria com facilidade.
- Todas nós sentimos – retrucou a outra, com um tom de desculpas – Então, pensei...
- Não tenho tempo para isso – Ariane voltou-se para seu “oponente” voltando a segurar a espada com firmeza.
Sophie viu as horas passarem rápido, enquanto observava Ariane. Sentiu alguém tocá-la de leve e virou-se. Lisangela tinha um sorriso alegre e despreocupado no rosto, e uma raquete em uma das mãos.
- Vamos jogar! – convidou, animada.
- Chame a Talita para jogar com você, estou assistindo Ariane treinar.
Lisangela deu de ombros, indo procurar a prima, com a animação com que sempre estava. Sophie suspirou, sentindo uma pontada de inveja pela constante jovialidade e capacidade de Lisangela de estar sempre rindo, mesmo quando todas estavam chorando. De repente, Ariane parou, ofegando. Procurou o sol, encontrando-o perto do horizonte.
- Vamos entrar, Sophie. Está escurecendo...
Entraram ambas na casa, sem se falarem. Ariane dirigiu-se para o quarto, encarando o espelho preso atrás da porta. Viu uma menina de feições agradáveis e femininas, suaves, embora seus olhos tivessem uma expressão dura e humanizada ao mesmo tempo. Os cabelos compridos caíam-lhe delicadamente nos ombros e desciam pelas costas até atingirem a cintura. Suas roupas simples ocultavam um corpo feminino e delicado, marcado por leves hematomas que seu treino causava.
Bateram na porta, despertando Ariane de seu devaneio. Virou-se, ao mesmo tempo que abriam a porta. Sophie entrou, com um sorriso tão alegre que Ariane ficou desconfiada do que se tratava.
- Que houve, Sophie?
- Andreia veio nos visitar!
Ariane controlou o turbilhão de emoções que sentiu, com uma expressão de indiferença. Deu um sorriso de compreensão, enquanto pensava no que fazer. Sophie não lhe deu tempo para pensar, puxando-a pela mão para vê-los.
Andreia estava mais adulta, mas não mudara em quase nada, mas tinha o semblante mais sério e responsável, comovendo Ariane. Ao vê-la, Andreia deu um largo sorriso, fazendo a moça ruborizar. Milhões de perguntas afogaram a recém chegada, especialmente perguntas indiscretas de Lisangela. Estavam todas felizes com o retorno, havia mais de seis meses que partira, e apenas Ariane a fitava e escutava a conversa, deixando as outras fazerem as perguntas que ela mesma queria fazer.
Andreia abriu uma grande mala, dizendo que havia trazido presentes para todas. A gritaria, algazarra e festa na casa foi tamanha que vizinhos começavam a ligar reclamando. Sentada no sofá com um pacote nas mãos, Ariane estava em silêncio, observando as meninas conversarem. Ariane, excluída totalmente da conversa das garotas, partiu para seu quarto. Horas depois Andréia foi se juntar a ela. Ariane corou, mas continuou fingindo indiferença.
Andreia deu um suspiro longo. Virou-se para a menina, observando-a. O suave traço de uma beleza feminina no rosto dela o surpreendeu, que nunca a havia visto como uma mulher no sentido conotativo da palavra. Igualmente ruborizada, mas com dificuldades em ocultar os sentimentos que o invadiam, atrapalhou-se em gestos e palavras, tocando-a de leve.
- Então... como anda a vida na América? – indagou ela, repetindo pela décima vez a pergunta que as meninas já haviam perguntado.
- É no Canadá e anda bem. – respondeu Andreia, vagamente.
- Fico feliz por você.
Andreia franziu o cenho, perturbado.
- Está mesmo feliz? Parece tão abatida, um pouco triste.
- Pareço? Devo estar cansada – ela tirou uma mecha rebeldemente lisa do rosto –, treinei muito nesses últimos tempos.
- Sentiu minha falta? – deu um sorriso agradável, mas que fez Ariane tremer.
- Q...quê? Que quer dizer com isso?!
- Nada de mais – ela deu de ombros, com os olhos fixos nos dela. Tirou os óculos, revelando a nudez do castanho de seus olhos. Hipnotizada pelo olhar dele, Ariane suspirou. – Está cansada? Não é melhor descansar?
- Não. Estou perfeitamente bem. – ela não queria de modo algum perder aquele momento, talvez o único em que estivesse a sós com Andreia.
- Vou partir em breve. Passarei apenas esta noite aqui, mas logo cedo vou embora, amanhã.
- Que pena. – ela deu um sorriso triste – A sua presença aqui retira um pouco da tristeza desta casa... ela parece tão vazia e deprimida sem você!
- Você gosta de mim, Ariane? – indagou Andreia, mudando de assunto bruscamente. O coração da jovem moça palpitou, emocionado. Não tinha certeza, porém, do que responder.
- Como assim?
Ele inclinou a cabeça de um jeito matreiro, dando um sorriso. Ariane por um instante pensou que sua face pegava fogo, tamanho o ardor nela.
- Eu não preciso responder isso – ela falou devagar, com medo de gaguejar e embolar as palavras – e tenho certeza de que você mesmo pode descobri-lo facilmente.
Ainda sorrindo, Andreia aproximou-se de Ariane. Enquanto ela pensava no que fazer, ele ficou de frente para ela, erguendo seu queixo e beijando-a. O calor daquele beijo fez os pensamentos já confusos de Ariane misturarem-se e fundirem-se numa idéia apenas: de que aquele beijo não acabasse jamais.
O beijo durou minutos curtos demais para os amantes, sendo interrompido por um barulho que vinha de cima, e que claramente descia as escadas, fazendo escarcéu à medida que se aproximava do térreo. As meninas apareceram, rindo muito, falando alto e brincando. As meninas olham para a cena com ternura. Andreia, que conversava tranqüilamente com Ariane, não aparentava de modo algum culpa ou embaraço pelo beijo que se desenrolara há pouco.
- Andreia, vamos tirar uma foto!
Andreia sorriu, e Ariane não viu nesse sorriso a ternura e doçura que haviam estado no sorriso que elas compartilharam. Andreia ficou no meio da foto, com Ariane de um lado e Sophie do outro. Esme ficou entre Lisangela e Talita, festeira como sempre, faziam graça para a câmera. Deixando as mãos ao lado do corpo, Ariane sentiu a dela roçar a sua, e retirou-a com rapidez. O flash disparou, e ela se assustou.
A prima foi embora na manhã seguinte, e a despedida foi a última vez em que Ariane pensou que veria Andreia. A foto, em que os dois estavam centralizados, foi guardada na sua gaveta, dentre tantas outras.
Mas cada vez que a via, ela tinha sempre a mesma impressão: na foto, parecia que eles seguravam as mãos, e ambas sorriam, felizes. Sentindo lágrimas quentes rolarem pelo seu rosto, escreveu uma nota na borda, em letras miúdas: “Meu corpo pode não pertencer a você, mas meu coração nunca foi meu.”
Enquanto estava pensativa, ouviu um bater na porta. Sophie entrou, antes de esperar a resposta de Ariane. Encontrou a moça com os olhos vermelhos e a fotografia nas mãos. Andreia tentou esconder a foto, mas foi em vão. Sophie tomou-a de suas mãos.
- Ariane! – exclamou ela. – Você gosta da Andreia!
A moça não conseguiu arranjar argumentos ou quaisquer palavras para dizer. Conteve um suspiro de choro, fazendo grande esforço para não transbordar de emoções. Sophie ajoelhou-se ao seu lado.
- Você gosta dele...
Ariane levantou-se, sentindo que as lágrimas quentes novamente insistiam em banhar-lhe o rosto. Correu para longe, tornando-se sem perceber a fera gato que era. Quando se deu conta, estava no campo de treinamento, com o boneco que Andreia lhe fizera na sua frente, encarando-a. O sorriso no rosto do espantalho nunca lhe parecera tão cínico.
Num golpe de fúria, medo e confusão, atacou-o, dilacerando-o o máximo que podia. Vários minutos passou assim, golpeando o indefeso boneco com a raiva, a dor e a dúvida que tivera contida até então.
- Eu a odeio, Andreia! – disse, mais para o boneco do que para si mesma. Pois sabia que não poderia se convencer disso tão fácil.
Parou, analisando o estrago que causara ao boneco. Sentiu um certo remorso, e virou o rosto para não encará-lo, como se sentisse vergonha do que acabara de fazer. Viu Sophie sentada a poucos metros, com uma expressão triste no rosto, que pendia entre as mãos.
- Sophie! – gritou Ariane.
A menina não se mexeu de seu lugar, e uma lágrima dançou em seus olhos. Andreia se acalmou, sentindo o sangue deixar de ferver e sua calma voltar. Sentou-se ao lado de Sophie, respirando fundo.
- Eu gosto dela sim, Sophie. Por que chora?
- Choro porque não é a única que sofre por ela, Ariane.
A moça encarou-a, incrédula. Seus olhos umedeceram, e se abraçaram. O calor daquele abraço, num misto de compaixão e dor, de certo modo acalmou o coração desesperado de Ariane.
- É só você? – sussurrou Ariane, contendo as lágrimas que insistiam em cair.
- Acho que sim...
Enlaçou as pernas com os braços e encostou a cabeça, num gesto cansado. Sophie imitou-a, e lançou-lhe um olhar tão triste que parecia pedir desculpas. A menina penteou com os dedos os longos fios escuros de Ariane, imaginando se a alma da moça estaria tão negra quanto eles.
Dias se passaram, como anos. E com os dias, os meses também passaram. Quantos, cinco, seis? Longos e penosos meses, trágicos e incoerentes para Ariane. Pois cada dia que se passava, convencia-a mais de que Andreia não voltaria, e que nunca seria dela.
”Ela pertence à outro mundo, ela pertence à outro mundo”, repetia para si mesma, numa vã tentativa de convencer-se e esquecê-la. Seu olhar de ébano constantemente úmido e sua mente insistentemente voltada para o amado fizeram da jovem uma alma triste e penosa.
Desesperos e alegrias faziam dela eterna antítese, curiosa de observar-se por algum tempo, mas que logo cansava o observador. Mas um fato veio a encurtar a solidão que enegrecia a alma de Ariane, embora mais viesse a confundi-la.
Andreia estavam voltando para casa. E Vinha com um plano, por seis meses pensara sobre isso até convencer o Diretor X da verdade. Ela vinha para leva-las, todas as seis. O instituto umbrela não estava preparado pra o que estava vindo, mas teria que se virar assim mesmo.

